sábado, 21 de junho de 2008

Taylorismo e Fordismo: o Paradigma da Produção em Massa

Segunda Revolução Tecnológica
A partir de 1894, presencia-se um boom (grande explosão) de inovações que marcam a Segunda Revolução Tecnológica do capitalismo (Segunda Revolução Industrial) caracterizada pela utilização da energia elétrica e dos motores a combustão como energia motriz. A produção passa a ter uma base técnica eletromecânica. O uso da eletricidade veio proporcionar uma forma de energia bem mais constante e confiável para o funcionamento dos equipamentos fabris que as existentes anteriormente (a energia a vapor, por exemplo). Isso possibilitou capacidades ampliadas das máquinas e ferramentas empregadas até então e a inauguração da época da produção em massa no início do século XX, quando neste contexto aparecem os “regimes de acumulação”: o taylorismo e o fordismo. (1)

Conceitos iniciais
. Regime de acumulação: “descreve a estabilização, por um longo período, da alocação do produto líquido entre consumo e acumulação; ele implica alguma correspondência entre a transformação tanto das condições de produção com das condições de reprodução de assalariados.” Um sistema particular de acumulação pode existir porque “seu esquema de reprodução é coerente”. (op.cit)

. Modo de regulamentação social e política: “uma materialização do regime de acumulação, que toma forma de normas, hábitos, leis, redes de regulamentação etc. que garantam a unidade do processo, isto é, a consistência apropriada entre comportamentos individuais e o esquema de reprodução, como um corpo de regras e processos sociais interiorizados.”(Op.cit)

. Áreas de dificuldade num sistema econômico capitalista
- qualidades anárquicas dos mercados de fixação de preços: pelo alto grau de descentralização, os produtores precisam coordenar as decisões de produção com as necessidades, vontades desejos dos consumidores necessitando de uma ação coletiva do Estado e das instituições sociais, políticas, religiosas, sindicais, patronais e culturais;
- necessidade de exercer suficiente controle sobre o emprego da força de trabalho: para garantir a adição do valor na produção e, portanto, lucros positivos para o maior número possível de capitalistas; conversão da capacidade de homens e mulheres de realizarem um trabalho ativo num processo produtivo cujos frutos possam ser apropriados pelos capitalistas; a produção de mercadorias em condições de trabalho assalariado põe boa parte do conhecimento, das decisões técnicas, bem como do aparelho disciplinar, fora do controle da pessoa que de fato faz o trabalho; o processo de familiarização dos assalariados com o trabalho tem que ser renovado com a incorporação de cada nova geração de trabalhadores à força de trabalho.

Taylorismo
Frederick Winslow Taylor (1856-1915) propôs , em seu livro Princípios da Administração Científica, um novo tipo de administração fabril. Percebeu que havia uma porosidade” (dispersão pelos poros) em um dia típico de trabalho, ou seja, que havia um grande número de movimentos desnecessários feitos pelos operários. Dividiu, então, cada tarefa em seus movimentos básicos componentes e pôs-se a buscar a maneira ideal (the one best way) de realizar cada movimento com o mínimo de perda de tempo e energia possível. Se antes cada trabalhador executava a rotina a seu modo, de acordo com sua experiência individual, Taylor propunha agora que a administração estudasse cientificamente o jeito mais eficiente de se realizar os movimentos e obrigasse o operário a trabalhar daquele modo, ou seja, as técnicas, a maneira de trabalhar, passavam do operário para a gerência. Marcado por conceitos como “parcelização”, “tempos alocados” e uma separação cada vez maior entre concepção e execução, proporcionaram grandes incrementos de produtividade. (1)

Fordismo
Henry Ford (1863-1947) fundador da Ford, criou a linha de produção em massa, sustentada pela padronização dos processos. Tal sistemática representou o aperfeiçoamento do conceito de produção em fluxo, desenvolvido no início do século XIX onde as máquinas seriam dispostas por ordem de seqüência de operações evitando-se o desperdício de tempo e energia no transporte das peças entre departamentos diferentes. O grande avanço da Ford foi ter introduzido este processo nas indústrias metalúrgicas com a adição de correias transportadoras. Se antes os trabalhadores carregavam as peças de uma máquina para outra, agora se limitavam a ficar sentados, trabalhando as peças, que chegavam até eles automaticamente, pelas correias transportadoras. O aumento da produtividade se deveu exatamente pelo fato de que o ritmo do trabalho deixava de se ditado pelo operário e passava a ser controlado pela gerência, que impunha a velocidade desejada à correia transportadora. (1)

. Distinção entre o fordismo do taylorismo: o que distingue o fordismo do taylorismo era a sua visão, seu reconhecimento explícito de que produção em massa significava consumo de massa, um novo sistema de reprodução da força de trabalho, uma nova política de controle e gerência do trabalho, uma nova estética e uma nova psicologia, em suma, um novo tipo de sociedade democrática, racionalizada, modernista e populista.

Fatores motivacionais para o estabelecimento do fordismo
. Miríade de decisões individuais, corporativas, institucionais e estatais, feitas ao acaso ou respostas improvisadas às tendências de crise do capitalismo, particularmente em sua manifestação na Grande Depressão dos anos 30;
. a subseqüente mobilização da época da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) implicou em planejamento em larga escala e completa racionalização do processo de trabalho, apesar da resistência do trabalhador à produção em linha de montagem e dos temores capitalistas do controle centralizado;
. confusões entre as práticas ideológicas e intelectuais: a direita e a esquerda desenvolveram sua própria versão de planejamento estatal racionalizado como solução para os males a que o capitalismo estava exposto, em particular na situação dos anos 30. Lênin chegou a louvar a tecnologia de produção taylorista e fordista em sindicatos da Europa Ocidental a recusavam.

Principais impedimentos à disseminação do fordismo nos anos entre-guerras
. o estado das relações de classe no mundo capitalista não era propício à fácil aceitação de um sistema de produção que apoiava a familiarização do trabalhador com longas horas de trabalho rotinizado, exigindo pouco das habilidades manuais tradicionais, concedendo um controle quase inexistente ao trabalhador sobre o projeto, o ritmo e a organização do processo produtivo; os imigrantes aprenderam e os trabalhadores americanos eram hostis;
. a industria de automóveis européia permanecia em sua maior parte uma indústria artesanal de alta habilidade produzindo carros de luxo para consumidores de elite, sendo ligeiramente influenciada pelos procedimentos de linha de montagem na produção em massa de modelos mais baratos antes da Segunda Guerra Mundial;
. Modos e mecanismos de intervenção estatal: tentativas diversificadas em diferentes nações-Estado de chegar a arranjos políticos, institucionais e sociais que pudessem acomodar a crônica incapacidade do capitalismo de regulamentar as condições essenciais de sua própria reprodução, com a crise fundamentalmente na falta de demanda efetiva por produtos.

Maturidade do fordismo do pós-guerra até 1973 (crise do petróleo)
Principais mudanças
. o capitalismo alcança taxas fortes de crescimento econômico;
. os padrões de vida se elevaram;
. as tendências de crise foram contidas, a democracia de massa preservada;
. a ameaça de guerras intercapitalistas tornada remota;
. surto de expansões internacionalistas que atraiu inúmeras nações descolonizadas.

Motivos históricos
. ascensão de uma série de indústrias baseadas em tecnologias amadurecidas no período entre –guerras e levadas a novos extremos de racionalização na Segunda Guerra Mundial, constituindo uma força de trabalho privilegiada de uma demanda efetiva em rápida expansão;
. o Estado assumiu novos papéis e construiu novos poderes institucionais para controlar os ciclos econômicos com uma combinação de políticas fiscais e monetárias no período pós-guerra; fornecimento de um complemento ao salário social com gastos de seguridade social, educação, etc.;
reconstrução de economias devastadas pela guerra, na suburbanização, na renovação urbana, na expansão geográfica dos sistemas de transportes e comunicações e no desenvolvimento infra-estrutural dentro e fora do mundo capitalista avançado;
. domínio de um mercado mundial de massa crescentemente homogêneo que levou as indústrias americanas absorverem grandes quantidades de matéria-prima do resto do mundo não-comunista;
. o Estado assumiu novos papéis e construiu novos poderes institucionais para controlar os ciclos econômicos com uma combinação de políticas fiscais e monetárias no período pós-guerra; fornecimento de um complemento ao salário social com gastos de seguridade social, educação, etc.;
. o capital corporativo teve de ajustar as velas em certos aspectos para seguir com a trilha da lucratividade segura; compromisso com processos estáveis de mudança tecnológica, investimento de capital fixo, melhoria da capacidade administrativa na produção e no marketing e mobilização de economias de escala mediante a padronização do produto;
. o trabalho organizado teve de assumir novos papéis e funções relativos ao desempenho nos mercados de trabalho e nos processos de produção;
. a derrota dos movimentos operários radicais que ressurgiram no período pós-guerra que preparou o terreno político para os tipos de trabalho e de compromisso com a produção; por causa da submissão dos sindicatos frente a pretensa infiltração comunista e a adoção de uma atitude cooperativa no tocante ás técnicas fordistas de produção em troca de benefícios e ganhos reais salariais.

Progresso internacional do fordismo
Significou a formação de mercados de massa globais e a absorção de um novo tipo de capitalismo fora do mundo comunista. Representou a abertura do comércio internacional com a globalização da oferta de matérias-primas geralmente baratas (em particular no campo da energia). O novo internacionalismo trouxe no seu rastro outras atividades econômicas e uma nova cultura internacional fortemente apoiada nas capacidades de reunir, avaliar e distribuir informação. Tudo isso sob o guarda-chuva hegemônico do poder econômico e financeiro dos Estados Unidos, baseado no domínio militar. O dólar transformou-se na moeda-reserva mundial e vinculou o desenvolvimento do mundo à política fiscal e monetária norte-americana.

Desigualdades e contrapontos do fordismo
. falta de acesso ao trabalho privilegiado da produção em massa, gerando os movimentos sociais de reinvidicação;
. etnocentrismo dos brancos e discriminação das minorias não brancas, levando à critica aos sindicatos que corriam o risco de ser reduzidos, diante a opinião pública, a grupos de interesses fragmentados que buscavam servir a si mesmos, e não objetivos gerais;
. problemas sociais enfrentados pelo Estado: queda da condição de fornecimento de bens coletivos que dependia da contínua aceleração da produtividade do trabalho;
. crítica dos consumidores: pouca qualidade de vida num regime de consumo de massa padronizado;austera estética funcionalista; aridez suburbana;
. críticas da esfera internacional: insatisfeitos do Terceiro Mundo que tinham destruídas a suas culturas locais, opressão e formas de ganho capitalistas exploratórias em detrimento do padrão de vida a não ser para as elites nacionais constituídas.

Referências:
(1) VARIA HISTÓRIA. Fordismo, pós-fordismo e perestroika soviética. Departamento de História. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, UFMG. Belo Horizonte. n. 1. 1985

HARVEY, David. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. 13 ed. São Paulo: Loyola, 2004. p. 118-134.

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